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quarta-feira, 18 de maio de 2016

o casaco; o desfalque

Eu vejo-te. Vi-te assim que entrei. As sombras interrompidas pelas luzes epiléticas mostram-me a tua barba e num momento os teus braços sobem, noutro descem. És alto. Quando te conheci, longinquamente, não te achei bonito. Tornaste-te bonito à medida que a noite avançou, naquela noite, não esta, porque nesta eu já entrei a achar-te bonito. E como havíamos falado durante tantos meses e como havias deixado de falar, de repente, como se faz on-line. A minha ansiedade, essa minha insegura confiança, tornou-se num pensamento absurdo ou válido ou reles e mesquinho: que talvez devesses ser tu a falar-me. Acho que fingimos os dois não nos vermos, mas se houvesse um destino, fátuo ou jocoso, eu acreditaria que ele quis que o meu grupo decidisse, alheado da história toda, ficar perto de onde estavas tu, dançando com o teu grupo.
            Eu encostei-me ao bar. Vi-te passar, como um adolescente (eu e tu), e nem moção fiz para que me visses. Fizemos isto duas vezes. À terceira, (terás tu roçado em mim de propósito?) ao passares por mim, eu disse-te olá e dei-te um estalo na brincadeira. E como tu és alto e imponente e os teus braços são grandes e a tua barba é sublime. Disseste-me que não tinhas reparado que era eu e que já te tinhas questionado acerca de quem seria aquele rapaz giro. Que eu entretanto tinha ficado mais musculado. Fizeste-me sentir bonito pela primeira vez na noite toda (passara o tempo todo a pensar que era um pequeno peixe num aquário enorme). E por isso nunca entenderei porque me pareces intimidado por mim, porque te ris, amiúde, de forma nervosa. E és doce. És querido. Uma lufada de ar fresco numa discoteca repleta de fumo e futilidade e corpos vazios.
             Conversámos uma conversa de quem não se vê há imenso tempo e só se viu uma vez na vida. Temos história mas é história virtual. O que partilhámos nós, afinal? És brando: vês-me a dançar sozinho e puxas-me para que dance contigo. Eu não sei dançar, os meus pés toscos e os meus ombros presos envergonham-se perante a tua fluidez e altura (não altivez, entendes?), e quando me seguras enteso-me todo (não daquela forma sobre a qual me questionas, mais tarde, não, eu não estava teso porque já te explico), fico rígido não porque quero resistir mas porque me acobardas. A uma altura pegas em mim e levantas-me e eu sinto-me leve nos teus braços. E eu nunca me sinto leve.
          Sempre fui um bom ator, no entanto. Sei pôr um olhar que se deixa ver como solidamente seguro. Sei dizer as coisas que fazem de mim um orador confiante. Tu ris-te nervosamente, pois, como dizes, tens de te afastar porque há demasiada empatia entre nós (só porque te sugeri que me convidasses para um café no dia seguinte, a sério?). E assim, neste vaivém de claro-escuro, de aproximações e afastamentos, a noite desenrola-se arbitrariamente (e após me teres contado que já não namoras) até as luzes saírem da epilepsia e o volume da música baixar e a própria música acalmar numa balada que podia ser a primeira música da primeira dança do primeiro casamento. E chamas-me outra vez para dançar, desta vez, de forma mais gentil, meio abraçados, agarrados, cabeças postas nos ombros opostos, ali, na pista, tão lentos no movimento, e eu tenho a sensação de que se formou um círculo à nossa volta, que todos nos olham e, intermitentemente, concentro-me no momento (é aqui que me acusas de estar ereto, enquanto eu penso num hipotético futuro) e deixo a imaginação imaginar o nosso casamento (porque tu és grande e forte e eu poderia sentir-me seguro em ti, mas sobretudo porque és frágil e terno e nervoso e envergonhado e doce e suave e eu poderia fazer-te mais forte), eu sóbrio e tu bêbado[1] (aqui estará o cerne da disparidade, mais tarde).
            Pedes-me boleia para casa mas cedo nos apercebemos de que não ficará a caminho para mim. Tu vais pagar o cartão e eu não resisto e envio-te uma mensagem (como fazíamos há uns meses atrás) a dizer que me deixas perturbado + emoticon + lol embaraçado. Tu pedes-me que esteja atento ao telemóvel porque há uma hipótese de perderes o teu comboio, o que acaba por acontecer. Eu ofereço-me para te levar, para que não fiques sozinho na estação à espera do próximo. O meu amigo diz-me que se é para te levar que ao menos usufrua de ti, que vamos para a cama juntos, que nos comamos de uma forma fria e carnal. Mas não é isso que quero. Quero apenas falar contigo e talvez beijar-te quando nos despedirmos. Queria saber-te. Porque me irrequietas.
          A nossa conversa é tão fluída. O flirt entre nós é tão doce. Ao chegarmos pedes-me para estacionar, desligas-me o carro e dizes-me que não vamos beijar-nos porque estiveste a beber (estás bêbado) e a fumar. Mas permaneces. Não fazes questão de abrir a porta. Eu digo que não me importo com o teu hálito e que sim, vamos beijar-nos (terei de ser sempre eu a fazer isto?)
           A tua boca é feita de veludo (veludo e não seda, entendes?) e falamos, por fim, a mesma língua. Assim continuamos sôfregos, o dia já de dia e a chuva lá fora talvez a indiciar a nossa história, não como um crime mas como um desfalque (como adolescentes, tal como na discoteca). As tuas mãos vão de vez em quando a sítios aonde não quero que vão, e eu afasto-as. Não era isso que queria que acontecesse. E também não me sinto à altura e estou suado e tu vais achar nojento e foda-se estou tão entusiasmado que não consigo ficar teso (agora sim, essa forma de estar teso) e tu estás e os teus olhos, bom, eu não consigo perceber se estão concentrados no momento ou se é apenas o álcool a ver.
        Claro que eu sou fraco e fazemos tudo o que se pode fazer dentro dum carro comercial. Procuramos lenços de papel para que não nos sujemos. Pedes-me que te olhe nos olhos enquanto te vens e perguntas-me se demoro a vir-me ou não, porque queres que me venha contigo. Isso acontece desfasadamente, mas acontece. O teu esperma jorra e é espesso. Tinha-te dito que suspeitava que gemesses de uma forma bonita enquanto te vens e isso confirma-se. Tu vens-te e esperas que eu me venha. O som seco da minha garganta enquanto me venho distraiu-me do que estava a acontecer, e só reparei quando o orgasmo passou que me tinha vindo, abundantemente, para cima do teu casaco, que rapidamente dizes ter custado duzentos euros (porquê falar do preço, não sabes que o dinheiro estraga tudo?).
        O cómico é que isto tinha de acontecer. Não podia ser, simplesmente, inócuo e perfeito. Isto estava para acontecer. Pareces-me chateado e eu fico fodido por estares tão chateado porque eu dei-te boleia, mas depois acalmas e eu não acho que estejas assim tão chateado. Espero que não estejas. Não me sinto culpado.
          E porque nos tínhamos vindo e isso é o mesmo que ficar sóbrio a todos os níveis, chega a hora da despedida, porque agora as tuas hormonas já acalmaram e reparas que, muito simplesmente, estás a morrer de sono (eu sinto-me feio, desgrenhado e suado): “Manda-me mensagem quando chegares…quer dizer, já vou estar a dormir, mas manda na mesma”, enquanto me dás dois bate-chapas (para onde foi o calor e a envolvência e a língua e os braços a segurar a nuca e os gemidos e o olhar?) e sais do carro, depois de deixares uns trocos para as portagens.
         Eu vejo-te. Vejo-te assim que sais do carro. Não olhas para trás. Não me convidas para um café no dia seguinte. És alto. E os teus braços são grandes e a tua barba continua sublime. Quando te conheci, longinquamente, não te achei bonito. Hoje, a tua caixa abriu-se. Porque te tornaste, agora, uma beleza terrível?




[1] Cf. Desejo de compromisso existe, afinal.

sábado, 30 de abril de 2016

o conto das duas raposas

       Escorregou da boca e quase caiu na neve. Se caísse, quebraria o rasto contínuo sobre o manto branco e criaria uma mancha. Era carregada a custo e com passada leve, no silêncio da montanha, onde não era possível ouvir-se o sangue escorrer-lhe do corpo: uma espécie de compasso fúnebre. O vento cortava o silêncio. Uivando. Silvando num redemoinho agudo.
         Não lhe era importante que o tempo urgisse, que os lobos cedo fossem sentir a morte no ar. Para ela nada era importante, não mais. O seu pelo branco, agora manchado. Vistas um pouco mais de longe, dir-se-ia que as duas raposas eram iguais. 
       O movimento parou e ela foi erguida no ar. Não podia notar, mas havia uma respiração ofegante no seu pescoço, um alheamento que permitiria escutar algum ruído distante, um bafejar aflito. Mas o vento abriu-lhe o pelo do dorso com uma rajada direcionada e a caminhada recomeçou, o passo acelerado, mais diminuto mas também mais lesto.
Numa curva marcada por um penedo havia uma toca e seis olhos famintos. Se conseguisse, sentiria o calor aconchegante daquele buraco. Foi largada no chão com cuidado e, por momentos, dir-se-ia que permaneceria intacta e apenas caída, como uma piedade, mas no calor daquele cadoz a saciedade não se compadecia da morte nem a crueldade suplantava a ausência do artifício. A natureza era assim: o sustento possível e necessário até mais não haver.
A que servia de refeição estava tingida pelo pescoço abaixo de vermelho-sangue, como a imitar as outras que agora a devorariam. Era-lhes em tudo igual exceto na cor do seu pelo, branco como a neve que pisara, viva, e agora maculado. Os dentes haviam-se-lhe arreganhado para sempre num esgar indecifrável.

          O progenitor deitou-se nas quatro patas e enroscou a cauda à volta do corpo peludo. As crias atiraram-se sobre a refeição e a mãe, que esperara pacientemente, lambeu com tranquilidade o focinho da raposa-macho. Sobreviveriam mais uns dias. 


Don Gutoski, "A Tale of Two Foxes"




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

sou diagonal

Sou diagonal mas perdi
o jeito de viajar com
os olhos para dentro.
Se me atravessar um jato
melhor que seja vertical
e não de água mas de vento,
primordial e redondo.

Caminho mais quanto
mais horizontal estou:


Axioma: dissolver
os anéis que me prendem
e fazem abismos no ar.
E se por acaso puder voar,
que seja um voo espiral,
lasso, russo e
transversal:

que atravesse a história
do mundo e as heras enrodilhadas
nas torres dos castelos e palácios
onde eu aterrar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Tríptico de Silêncio

Intro



Se o brilho no meu rosto fosse
prata de luar brando
e através da minha dor
andasse afogado o sangue da tua,
o amor teria então casa
e seria compacto como a noite,
noite onde todas as faces são
palavras nascidas do breu,
e o amor sorriria.
E eu diria 
que o amor é a fome transformada,
e que nós somos dois poços fitando o céu.

Selfie I: Elagabalus


Outro

Tâo soberba e tão cega é
a música dos surdos-mudos,
impercetível conjunto
(um mais um mais um)
de números iguais e inventivos.
Dessa água, um haiku morrente,
não beberei eu, cruel supremo.
Tu, alto, material, estreito, cadente
chegas como um sopro disfarçado
de verdadeira avidez.
Sem suposição de corpo,
és a mais severa música:
eu, tu e o diabo fazemos três.

Selfie II: Ἀκταίων




Ad Libitum

Gostava de saber a matriz do tempo.
Queria respirar pela minha voz,
como um dicionário de palavras suspensas.
A terra é afinal tão pequena,
e há tanto sangue na terra,
e tanta ciência e tantas flores
na terra.
Como um múltiplo do mundo,
eu levanto voo;
Como um bêbado ao alcance de um tombo,
eu levanto-me.

E por entre as corolas,
estrondo adentro,
como numa espécie de transe,
deixa-me ressuscitar no fim dos meses,
pedra sob pedra,
pétala a pétala,
como pólvora num arcabuz essencial.
Deixa-me ver enfim o pleno dia, ver
como homem primitivo e exato,
ver a luz primordial.

Selfie III: Ἠέλιος

sábado, 22 de agosto de 2015

imagem refletida

5.
Partiria pelas 14:30. Estava nervoso porque era suposto estar nervoso em tais situações. A caminho do aeroporto, sentia um fogo frio na garganta e no estômago, um fogo que me ardia gelidamente em contacto com o ar condicionado do carro dos meus pais. Eu, sempre externamente estoico, deixei-me estar condunzindo, só para não ter saudades disso tão cedo.
Os meus pais discutiam com o meu irmão e o meu primo, que viera porque gostava muito de aeroportos, permanecia calado, provavelmente feliz com a expectativa de rever os aviões a partir e a chegar. Esse meu primo, filho do tubarão, ironicamente enfeitiçado pelos aeroportos. Suspeito eu que fosse pela memória do pai.

Mas era eu quem partiria.

12.
Partiria pelas 14.30.
Estava nervoso porque era suposto
Estar-se nervoso em situações assim.
A caminho do aeroporto, a garganta
Um fogo em uníssono com o ventre,
Um fogo que me ardia friamente
Como o ar condicionado do carro
Dos meus pais. No entanto,
Deixei-me estar conduzindo, só para não ter
Saudades disso tão em breve.
Os meus pais
Discutiam com
O meu irmão e
O meu primo, que viera porque gostava muito de aeroportos
(talvez porque lhe lembrassem do meu tio, que chegava sempre de avião e tinha sido, seria ainda?, o seu pai),
Permanecia calado,
Provavelmente feliz com a expectativa
De rever os aviões na aterragem e descolagem. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

um tubarão morto na praia

3.
     O avião não caiu. Chegámos a Lisboa vindos de Cabo-Verde, sem nunca dormirmos. Eu sabia que algo se havia passado. A minha mãe era uma trave de força que eu não entendia totalmente. Tomávamos direções entre as lojas do aeroporto procurando roupas pretas, dizia ela. E aí, mesmo sem confirmação, eu soube que estavas morto. No fundo de mim, eu soube que me morreras. O teu tio Tónio morreu. O meu tio Tónio morreu. Chorei. Chorei tanto abraçado à minha mãe, tua irmã, que me afagava a nuca. Vi-te em todos os momentos das nossas vidas. E agora que tudo me parece difuso, eu lamento não ter ficado para sempre menino. Os pardejos que matámos no monte que eu pensava ser do avô. Como um dia me ensinaste a depená-los e aquele que eu depenei demasiado. A tua mota que me fazia sentir especial em relação aos outros meninos. As horas à tua espera no aeroporto e a felicidade de ver o avião que te trazia de França todos os anos. Mostraste-me o aeroporto sem nunca o teres feito. A tua face sisuda ao ver-nos, sabendo nós que não permitirias que as lágrimas caíssem dos teus olhos. Eu lembro-me, tio. Da operação que te ceifou metade de um pulmão, da cicatriz, dos cigarros e da aguardente que sempre tomavas em nossa casa antes de ires para o trabalho. E não sei qual dessas imagens é a mais tua.
       Naquela longa viagem sul-norte, desde o aeroporto até casa, o táxi recordava-nos de todas as lágrimas que iriam cair assim que chegássemos. Essas três horas e tal foram um crescendo. O fim de tarde lento, de calor, o meu gato desnorteado, ao chegarmos a casa. A minha madrinha que avisou a minha mãe para não ir para a casa da avó chorar e o quanto as duas choraram abraçadas por nos teres abandonado. E eu só conseguia imaginar o seu sofrimento medindo-o pelo meu.

        Queria que notassem que eu sofria.

        Talvez porque pensasse que me vias de onde estivesses.
      Subimos o caminho poeirento até a casa da avó. Abracei-me a um dos teus sobrinhos e chorei. A minha camisola preta de mangas compridas que havia escolhido pela cor, quando achava que essa cor te respeitaria, prendia o meu primo com força, ele muito maior do que eu, eu pequeno, apenas um dos sobrinhos, a chorar muito e à espera de ainda te ver. E o primo a dizer que depois de morrermos era como uma máquina que terminava. E eu não sabia o que ele queria dizer porque te queria num sítio melhor, à nossa espera.

      A tua mulher chorava num dos quartos e eu beijei-a com a minha boca nojenta e rebentada, e senti-me porco e indigno. Eu sofria e queria que as pessoas vissem que sofria. Não porque o meu sofrimento não fosse verdadeiro, mas porque queria que percebessem que eras o meu preferido e que talvez eu também fosse o teu. A avó chorava na sala, cercada pelas velhas. Do avô não me lembro, mas sei que ele te sentiu como nenhum de nós. Era uma tarde lenta de verão. A morte tocou-nos no calor e fomos dilacerados por um sol que nunca mais nos aqueceu. Dizia-se, já não há alegria.  

quinta-feira, 7 de maio de 2015

a assunção

Por entre brumas, Hércules
de beleza terrível
corre esvaziando o peito: e
vem um sinal dos céus,
em jeito de hélice:
andas em círculos,
herói,
despejando o sistema de circulação e
esgotando o espaço.

Hércules caminhará
continuando em círculos,
a saída sem entrada sem saída:
flanqueado por dois opostos,
que lhe dirão:
ama-nos aos dois e acha um no outro,
herói,
só assim encherás o peito,
cantando à vida.


Jan van den Hoecke, Hercules Between Vice and Virtue

quinta-feira, 9 de abril de 2015

qualidade de fortuito

o teu corpo cheira a balneário
e a minha mão é determinada
(nos teus braços
eu também tenho odor
a roupa interior transpirada)
vejo-te ascendente
e tu olhas a periferia,
mãos abençoando uma cabeça secular.

a humidade sobeja
no fulgor crescente de um grito que se gera
na impaciência de um sorvo
e eu flito as pernas e estendo asas espirais
na sudação do ar:
e abrindo a boca
solta-se num vaivém continuado

a interjeição que nos faz corar.

The Forgotten Guard (1957), Yannis Tsarouchis 

segunda-feira, 23 de março de 2015

o eterno retorno

a ilusão possível:
movemo-nos em direção
caminhando
com rumo
alvo e objetivo

pensando-nos linhas retas

o axioma maior:
somos pregados
um só sítio
olhando
em volta e

sabendo que somos circulares

The Ouroboros FestivalAlex Kuno

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Kalon kakon

Eu Prometeu
Prometo segurar-te
A chama 
Até que os homens 
Os outros homens 
Os de ferro
Te enferrujem essa urna
Onde guardas
A esperança minha
O mal de seres a beleza 
Terrível dos meus dias
Eu Prometeu
Prometo segurar-te
A chama 
Até que as minhas 
Mãos ardam 
E eu seja livre
Terrivelmente livre 
Do teu mal 
Tão belo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

The Spin of the World

There could be no reason 
In the non-place between
A vast lust
And a castle's obsession
With being a wall
Against any 
Invasion

Not at sea
Not on land
Not in the air

There will never be enough
Arguments against 
The cruelty of the world
As long as we can hold hands
And as long as I walk
And the world
Spins

To the sound of drums
Or to the sound of a cry 
There will never be enough 
Rings in the sky
Or wells so deep in the air

And I'll never succumb
To this damn world 
Even if it stops 
Spinning

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

non-story

Ours is a non-story,
happening betwixt and by
lack of pretext.
You deemed it that way
when you didn't follow
the stream of blood
all the way unto my lap.
Ours is a non-story,
you are a non-person,
I am a non-lover,
but it all could have happened
in that place between
my heart and yours.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Tríptico de Espera

3.30

Um,
Rumo ao sul
Na carruagem as oliveiras nas cartas
Dadas de pernas abertas.

Dois,
Chora uma criança a sul
E na terra avermelhada cai o céu
No franco duende fechado.

Três,
A música persiste a sul
As casas brancas acenando
As conversas escondidas

Meia,
A sul, um carro esperando,
Sinto-o, não o vejo,
Durmo apenas o cegosurdomudo sono.


Francis Bacon, "1946"



1.30
Uma hora
Ardendo em bancos ocupados
Fora de mim
Como foi que assim tudo se volveu
Um sol de sangue ardido
E eu, o topo de um precipício
Fiquei sendo o fundo
Olhando o céu
Hoje, meia hora
Crio asas que vão voando sozinhas
No meu próprio limbo de tempo desfeito
Sou apenas o que posso ser
Em nada mais me resta transformar
E as asas que ardam até
Os meus braços serem pedra
Forte, e eu suba, por fim, mais alto do que elas.



Pietro Muttoni, "Sisyphus"


- 1.30
Menos de trinta minutos.
E rasgos de luz insuspeitos a transbordar de sentido.
Leite derramado sobre a fronte quente.
Foi a confusão buscar-me sorrateira.
Furou-me de lado a lado.
Só depois a luz espreitou por dentro de mim.
Iluminou o furo e queimou a ferida.
Menos uma hora.
Gritarei de triunfo se tal for essa luz.
Estarei no oriente encontrado, os bancos puros.
E Vénus recolhida, dormindo, entregar-me-á os seus cabelos
Sem sequer acordar do sono do Amor.


Naked Soldiers, in My Buddy: World War II Laid Bare

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

you are what you beat

Will
by James Allen

(from the book, "As A Man Thinketh")

You will be what you "will" to be.
Let failure find its false content,
In that poor word "environment,"
But spirit scorns it and is free.

It conquers time, it masters space,
It cowls that boastful trickster "chance"
And bids the tyrant "circumstance"
Uncrowned, to take a servant's place.

The human will, that force unseen,
The offspring of a deathless soul,
Can work away at any goal,
Though walls of granite intervene.

Be not impatient in delay,
But wait, as one who understands;
When spirit rises and commands,
The gods are ready to obey.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

new year's resolutions

i will wade out
                        till my thighs are steeped in burning flowers
I will take the sun in my mouth
and leap into the ripe air
                                       Alive
                                                 with closed eyes
to dash against darkness
                                       in the sleeping curves of my body
Shall enter fingers of smooth mastery
with chasteness of sea-girls
                                            Will i complete the mystery
                                            of my flesh
I will rise
               After a thousand years
lipping
flowers
             And set my teeth in the silver of the moon

e.e.cummings

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

negação

Mataste-te dentro de mim, paulatinamente
entregando a tua inteireza ao caos: do
musgo verde onde dormimos um dia
principiou em brotar um
fio vermelho-sangue, um fio de ariadne
carcomido, quebrado, perdido e

do sismo que era gerou-se um sussurro,
das trevas da beleza as garras do tempo
cravaram-se em odiosa dúvida - uma
imagem terrível de perda e
suspeita liberdade; e todo o amor,
todo o júbilo, toda a elevada matéria do tempo

brandem espadas que enjeitam
os primeiros degraus,
o delírio das coisas,
os elementos iniciais.

vê como o romance do teu suicídio matou
a fotografia de ti, agora e
progressivamente mais baça: és
um rosto de luto nos meus olhos,

e eu fecho-os por não te ver e
para não te ver fechar os teus.


"Grey Daisy", Marilyn Manson


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

as vidas dos animais

"...Os animais não podem ser humilhados ou destruídos. Há uma espécie de dignidade por falta de recursos morais, uma inteireza fundada no mundo natural. Por meio de consciência, o homem alcança o poder ou a vulnerabilidade que o destrói. Escolhe-se a força ou a destruição própria, através da inspiração passada às provas, na enigmática malha da vida, opondo as astúcias do talento a cada repto das coisas. É o génio íntimo de cada um. Génio que não dá paz, que se contenta de si, e se alimenta no seu mesmo exercício. O poder é o poder, mais nada. Um bicho, depois de fugir em pânico assenta as patas na terra e avança inteiro, com os cornos baixos, ele todo projectado na violência da cabeça. Passa ou não passa. Passa ou morre. A morte é o seu abismo. Não pede perdão. Porque a inteireza animal é cega, limpa como a luz."
Herberto Helder, "Aquele que dá a vida" (in Os passos em volta, p. 105)  

provavelmente Carpóforo, Gladiador bestiário.

Trípticos

CENTO E QUINZE QUILÓMETROS A OESTE

1. Pré-APDC

Houve o choque no estrondo da noite. Bêbados, os lençóis deram alento apenas uma vez enquanto via pela luz que, escura, aclarava as sombras do quarto. Eu vi. Vi o abismo caindo em frente a meus pés descalços no gelo do que viria, e eu não soube parar de cair sem querer parar, fui, vi o sol, comi tubarões e calças cinzentas, tomei um judeu como escravo milenar. Da minha raiva de praia sob o luar e da canção atirada contra as ondas, e ele observando-a da encosta, desprotegido, o meu grito ia morrendo contra a água. Mas na noite estava eu não sozinho, nunca estive. Fui só senhor dos templos deserdados, nada mais. Até haver a noite em que a televisão se compadeceu de mim. Fui já não egoísta, mas malévolo, oh, se malévolo fui, como se tudo fosse o espelho de mim próprio. Depois, nas teclas límpidas de um piano, toquei a juventude de me saber carne, e envelheci.

Gottfried Helnwein - Epiphany I (Adoration of the Magi)


2. Na rua, cento e quinze passos, entrar.

A leitura repetida exaustivamente. Queimada pela luz capitalista. Os meus olhos sem acreditarem nas letras. Como se fosse uma punheta diária. Não senti o orgasmo a gerar-se. Soube, no entanto, gerir as trevas. Segui a voz dos caracóis até me encontrar de novo rosto. E ele perguntava, não estás estilhaçado. Não, estou uno porque o calor é o mesmo. E no fim havia sempre o capitalismo. Porco, que me levou à soberba. Jade partida, miríade de merda cinco horas a sul. Continuei porque era café para os mais novos. Nunca vi por essa altura que dos abismos se sai por cima. Escavei, no entanto, segui os caranguejos.
Nunca vi as baleias porque dormia. E talvez nem me lembre bem do cimento que incorporei. Porque os sumos morcegos, erráticos.
Talvez estivesse mesmo a estilhaçar-me. Caminhando até à inventada radiação.

Gottfried Helnwein - Epiphany II (Adoration of the Shepherds)


 3. East placed, West-bound.

Acordei com o Canadá no quarto, e os meus olhos eram uma alergia à partida sem lágrimas. Pelas montanhas, via-se a praia que refletia o céu. Com risos, direção sul, uns cento e quinze quilómetros a este, onde as ruas eram perfeitas. Fugiram-me, fiquei só, entrei no avião, bebi. Porque fiquei sempre a oeste, corpo de volta à velhice. Não vi os navios partirem. Mas deixei-os estar até que a Inglaterra me trouxe de volta ao conforto de me saber suicida. Não me matei, no entanto.

Porque o meu cérebro está ainda a cento e quinze quilómetros a oeste.

Gottfried Helnwein - Epiphany III (Presentation in the Temple)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

É no Meu Corpo que Morreste

é no meu corpo que morreste. agora 
temos o tempo todo 
ao nosso lado, como 
um lodo onde dormitam as 

conhecidas maneiras. 
algumas nuvens se aproximam, e depois 
se afastam, numa duvidosa 
manifestação de imperícia; 

os animais falantes 
atravessam corredores iluminados, 
embarcam na 

sossegada lembrança dos sonetos, 
o leve sono que pesou no dia. 
é no meu corpo que morreste, agora. 

António Franco Alexandre, in A Pequena Face

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

a carta

A cama por fazer 
foi a resposta de que precisei:
o silêncio da casa cheirava a morte.

Uma carta para cada um de nós:

Todas aquelas letras 
em 
todas aquelas linhas 
daquela minha carta, 
todos 
esses nomes, nomeações e conceitos, 
tudo a significar um abismo, 
mil e um abismos a nossos pés, 
quem me dera conseguir 
recordar o número exato de palavras 
e espaços e caracteres 
daquela 
filha da puta 
daquela 
carta. 

Para saber quantos abismos 
tive de sobrevoar. 
Para saber quantos abismos 
criaria eu,
um dia mais tarde.