Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 18 de julho de 2012

o homem sem emoções


      Estávamos, vamos imaginá-lo, num tempo sem demarcação histórica, sem presente nem passado, do futuro sabíamos apenas a raiva que lhe tínhamos, e num espaço sem limites físicos, sem um centro no universo. Essa era a época em que conheci o homem sem emoções. O mundo estava organizado de forma muito errática, mais do que errada. Do céu recebíamos o sol ou a chuva, como sempre tinha sido, mas sentíamos um peso que nunca havíamos experimentado antes, as pessoas moviam-se lentamente, ensimesmadas, os autocarros paravam morosos e os utentes entravam silenciosos, o metro já não rugia nos carris e dos governos pouco se esperava a não ser um suicídio em massa que finalmente desse o exemplo necessário. Tudo isto funcionava, no entanto, num plano congeminante que pouco tinha que ver com a esfera das possibilidades ou realidades.
        É importante que eu vá referindo ou vá revelando o zeitgeist de quando tudo se passou porque, repare, ainda que seja sempre a minha própria percepção do estado das coisas, não será de todo errado apontar para a humanidade a violência do pensamento em bando. Dito isto: duvido que esta forma de ver não fosse semelhante a uma parte significativa da população da altura. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

pergunta nenhuma e resposta alguma

     A futilidade é uma coisa que a todos diz respeito, de uma maneira ou de outra. A futilidade do romance, a futilidade dos óculos de sol ou até mesmo do nosso dever social em constante luta com o instinto hedonista. E, ainda assim, não somos todos egoístas nem egocêntricos. Uma boa pessoa não será nunca medida pelo sorriso nem a leveza e tom da voz, mas talvez apenas e somente pela capacidade de facilitar a vida do próximo, de a tornar mais vivível e, por consequência, menos ingrata. É que, vejamos e convenhamos, não há sentido algum no caminho desde o nosso nascimento até à nossa morte, com ou sem Deus ou deuses. O absurdo da coisa é indispensável a um relativo bom viver, penso eu. E, no entanto, sozinhos que estamos até agora neste universo de magnitude incontável e inimaginável, não estamos realmente sós mas uns com os outros, ainda que com os olhos maioritariamente postos no céu. Não digo nada de novo - mas reitero aqui que a única coisa que podemos algum dia almejar e de significativo atingir é essa mesma consciência do conjunto. Porque existe o amor e porque existe o apego, e porque existe o prazer e a tristeza, existe toda uma míriade de sentimentos e acções que nos dizem respeito e devem ser respeitados.    
     E, no entanto, passamos por mendigos todos os dias, damos até uma moeda, mas recomeçamos a nossa marcha e a vida daquela pessoa tem de ser esquecida, e é-o, de facto. Aí está o grande mal do mundo: a incoerência e a inevitabilidade do egocentrismo, a impossibilidade de não esmagar insectos com os nossos passos. Passamos e olhamos, mesmo se agirmos estaremos em falta com muitas outras causas e pessoas, por vezes esquecemos até aqueles que nos são mais chegados em prol de uma ideia que consideramos maior e que talvez até nem o seja.
     Mas, ainda assim, caminhamos porque temos de caminhar. Não podemos continuar. Continuamos. Não há nada mais que possamos fazer do que continuar. Esse é o nosso dever e é aí que devemos achar algum conforto. 

domingo, 13 de maio de 2012

the golden years

I never thought all this could backfire. I mean, I had blown my heart out with a single shot, but the more I shook my fists at myself, the more I was convinced my heart was not to blame. Truth is I had a hurricane in me that needed release, but I did not know how or had the means to set it free - and so that hurricane stripped me bare over and over again. To love so mighty a queen took its toll on my Christ consciousness and I became a whirlwind - full of sound and fury, equipped with such a stentorian voice that my own chest could not endure its mere volume. But, alas!, all lost, all lost. I shrank into a tiny wight creature, afraid of its own reflection. I never thought all this could backfire. But at least I wear my ruins well. These are my golden years.

terça-feira, 24 de abril de 2012

the spin of the world

Não poderia haver razão
no espaço liminal entre um desejo imenso
e a obsessão de um castelo que seja
a muralha contra qualquer invasão.

Nem no mar nem na terra nem no ar,
nunca haverá argumentos de sobeja
contra a crueldade do mundo enquanto
pudermos dar as mãos e enquanto eu caminhar

e ele girar.

Ao som dos tambores, ao sabor de um grito:
não haverá anéis suficientes no céu,
nem poços tão fundos no ar,
e eu não sucumbirei nunca a este mundo maldito

até ele parar de girar.


domingo, 22 de abril de 2012

remédios santos

"Eu esmuro o meu próprio peito."
"Eu arranho o meu pescoço."
"Eu desenho um corte na minha garganta com água fria"
"Eu molho os meus pulsos."