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segunda-feira, 2 de junho de 2014

cleansing

All my exes have turned into
housewives:
they lurk here and there,
behind the bushes,
trimming shrubs,
picking flowers.

And if my chest is an egg
they have picked at it,
but they never bothered
to fry or boil me.

And that is my Achilles heel:
I always find a way to beat around my bush
while picking pansies with thorns.

All my exes have turned into
housewives:
and I have become their mop.

domingo, 25 de maio de 2014

burn out

A maçã diz que estar-se cheio
não é tão pesado quanto estar-se
vazio, meu amor, meu amor, meu amor.

Enchemos sacos de nada
nas pedras dum uísque mal misturado
e ficámos colados à grande parede
sentindo o ritmo urbano
que vinha dos batimentos cardíacos
duma orquestra invisível.

Se a chuva caiu, o cabelo agradeceu,
e a carne apodrecida volveu-se nova e esperançosa
fluindo ao som de promessas que prometeram
nunca se cumprir - a cobardia dos gestos
em aliteração contínua e a desilusão,
a desilusão, meu amor, de não sermos
livres de sangue nem de partidas,
e a maldição de sermos lobisomens com um encosto,

comboios sem freio e roletas russas,
cães danados a esbarrar perpetuamente
contra uma fome que não se sacia nunca.

Anunciemos o fim dos tempos:
sem anéis no céu
nem degraus
nem poços no ar.

Nunca desenharemos juntos uma casa à beira-mar.
E nunca sonharemos a mesma canção
se não nos queimarmos ao de leve na luz da vela
que arde quarenta vezes antes de se matar.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

à l'inconnu du lac

Talvez eu te ame já. Talvez eu ame o que o futuro vai ser em nós. Conheço-te mal, vejo apenas névoas de ti e tento (só posso) desenhar-te a figura como um cego com as mãos. Mas antevejo-me a ler um livro a teu lado, em horas noturnas, numa casa à beira-mar, a sala com móveis de madeira escura e a luz média dos candeeiros a espelhar a doçura nos nossos olhos que se vêem uns aos outros nas palavras que os papéis nos mostram. Sentados lado a lado, talvez até nem lendo o mesmo livro, talvez apenas escutando o som da água na calmaria das ondas que não morrem na praia e antes se fundem com o areal branco, sentados lado a lado, adormecendo lentamente como o mel escorre, finalmente em lençóis sóbrios-puros-limpos-vivos, dormindo por fim um sono glorioso sem nem sequer antecipar a luz e o brilho do sol que a manhã nos trará. Amar-te-ei como se ama a eternidade: em verdade e transparência. E talvez mesmo eu te ame já, embora de ti tenha ainda apenas e só a tua ausência.

terça-feira, 6 de maio de 2014

voo

Escrevo o teu nome e um pássaro levanta-se da terra -
sobre o seu voo contrariam os teus olhos mil histórias
que eu escutaria com o mesmo silêncio admirado
com que na boca cai um beijo ou a noite atira o amor
para cima das camas. Mas o lápis rola subitamente

sobre a mesa e pára a sepultar as palavras que nunca
te direi - porque o rio não regressa à cidade que primeiro
beijou, nem o navio ruma jamais ao porto que o viu largar.

in poesia reunida, Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 30 de abril de 2014

the red wings of black birds

I am as far as the number Pi,
as close as the red wings of black birds,
as in-between as the ruins of an ancient doorway
that now leads to nowhere.
I am as strong as a river running
against a dam, as great as a lake
circling around itself - I am the eagle in the sky
the highway across a desert,
a snake biting its own tail.

And you are the hand that feeds me,
the spear wound that bleeds
on a tin bucket made for cleaning.
You are the rabbit down the hole,
the great looking-glass
through which I see you
as the car driving under the overpass
from which I think of jumping.

I am far, far away,
You are too, too close -
You're the road onto which I turn,
but we're no pleasure, all pain;
You were once my flame
and I'm twice my burn.

terça-feira, 22 de abril de 2014

esta manhã

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
Doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Y.O.L.O

Este é o tempo da cobardia,
de Cronos devorado,
das serpentes em braços alheios
sempre procurando uma cauda diferente
mas eternamente mordendo as suas.

Este tempo não é para velhos,
se a idade dum homem é
tão nada nem tão-pouco
musgo,
e a musgo sabem os nossos anos
verdes e perdidos.

Este é o tempo da construção
de ruínas sobre pedras
que martelámos no antigamente:
não é o ocaso da nossa vida
mas os cães que vivem por acaso
sempre acham osso melhor.

É este o tempo da falta de energia,
da Acrópole periclitante
que permanece grega e grotesca,
gritando pelos sete mares
vida vida vida vida vida vida e mais vida
e morrendo numa onda
que se quebra numa enseada
onde o sol queima a pele dos anos que perdemos.

Este é o tempo da cobardia:
tudo parte, tudo passa, tudo se come.
E nós ensaiamos uma vida
porque só se vive uma vez
mas nunca se ama duas.